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domingo, 3 de maio de 2015

JAVAÉ - Conto * Antonio Cabral Filho - Rj

***
JAVAÉ * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

*
Minha história começa pelo nome: Antonio.
Por ser filho de ambiente natural, onde os nomes são transparentes e
todos sabem seus significados, a palavra Antonio me causava
estranheza, por não saber o seu significado.
Passei a infância brincando com Coaraci, Jaci, Peri, cunhatans e
curumins da minha taba, nomes tirados por meu povo da sua relação com
a natureza onde vivia.
Mas a minha gente aceitava que um estranho chegasse e se juntasse a
nós, se casasse com uma cunhan da tribo e até que chegasse ao posto de
Ubirajara. Isso levou ao surgimento de nomes como o meu, Antonio; além
de outros como Maria, Ana, Francisco, Tereza etc, todos ligados a uma
religião baseada numa cruz e num homem branco que chamam de Jesus
Cristo, e, aos domingos, íamos à igreja deles.
Meu pai era um homem branco. Ele raptara minha mãe e a levara para um
cafezal, onde eu nasci. Depois, viemos morar com a família dela na
aldeia.
Até hoje eu não sei o que nos fez viajar no meio da noite, cruzando
rios a nado, florestas e montanhas no maior silêncio que eu já vi, sem
cortar arbustos nem cipós para abrir caminho ou fazer pousada sequer à
noite. Sei somente que minha mãe seguia na frente, comigo escanchado
ora nas costelas ora nas costas e, quando ela parava com o dedo
indicador sobre os lábios, era sinal de que havia perigo. Por diversas
vezes passamos ervas no corpo, para não atrais a sanha dos animais com
o cheiro do sangue humano.
Mas com o tempo eu fui percebendo algumas curiosidades sobre a palavra
Antonio: Nome de um santo que promove o casamento, uma espécie de deus
dos casais. Descobri depois que o seu dia é treze de junho, época de
festa junina, quando se faz quadrilha com todos fantasiados de
agricultor para comemorar as colheitas. Dessa época, eu preferia as
batatas assadas na fogueira, o milho cozido, os doces, as broas etc.
Pude notar que se tratava de santo festeiro, partidário da fartura e
certa liberdade de gula.
De surpresa em surpresa, caí sobre um dicionário de nomes próprios,
onde encontrei a surpreendente explicação sobre Antonio: Aquele que
não se vende, incorruptível, puro de espírito, que protege os pobres e
as crianças.
Depois de refletir sobre tudo que levantei a respeito do meu nome,
calei-me mais ainda sobre minhas desconfianças e rejeição a esses
nomes ligados a esse tal de Jesus e jamais revelei por que sempre me
apresentei pelo apelido de Javaé.
Certa vez meu pai deu-me a tarefa de capinar o matagal ao redor da
nossa oca, casa segundo ele, e ao terminar e amontoá-lo para queimar
depois de seco, foi-me entregue uma nota de dinheiro, para eu comprar
balas no domingo, após a missa dos cristãos. Então, lembrei-me do meu
nome, Antonio, incorruptível, que não se vende, lá do dicionário, e
perguntei ao meu pai se ele estava me comprando, me corrompendo, por
eu ter realizado uma coisa boa para todos nós, , como a segurança de
não haver nenhuma boiúna tocaiando nossos pintinhos, minha mãe deixou
claro que não gostou por ter lhe tirado o único local aonde pôr a
roupa para quarar e minhas amigas de brincadeiras chiaram por ficarmos
sem a relva onde estender as esteiras para tomarmos sol deitados.
Vendo meu embaraço, ante as três insatisfeitas, meu pai chamou-me e
disse ao pé do ouvido:
- Compra tudo de bala e dá duas para cada uma que elas esquecem logo-logo!
- Como o senhor é corrupto! Exclamei, mas não tive outra saída.
*&*

terça-feira, 4 de novembro de 2014

COISAS DO ARCO DA VELHA - Conto * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

-theathing-
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COISAS DO ARCO DA VELHA

- Os etês gostam de bunda. Foi o que captei da conversa entre as meninas, enquanto caminhava no calçadão do Liceu.
- Tem caras que não gostam, né; acho que não são chegados; comer um cuzinho será que não faz bem?!
- Cruz credo! Exclamei mentalmente, e segui meu caminho rumo ao Fórum, que fica em frente.
Elas vieram na minha direção, a passos firmes, olhar direto, "você tem fogo...", perguntou a morena pele-de-cuia, "e como tem", observou a loira de olhos azuis, típica europeia, me examinando de cima a baixo, parando os olhos, ostensivamente, na minha barriguilha; "te vejo sempre por aqui", disse a morena, enquanto eu lhe entregava o isqueiro; "é, estou sempre na cantina, tomando café; café de Fórum é choco, frio, fraco, e causa-me asia; então, venho na cantina, às vezes comer alguma coisa", concluí.
- Uma bucetinha, um cuzinho e o que mais? Indagou a loura, acendendo o cigarro.
- Você está sempre cercado de meninas! Não é à toa!! Vai ver é o maior safadão, pica doce.... Completou a morena, sempre combinando seus ataques com a colega.

O Liceu é uma escola destinada à classe média alta, concebida nos tempos do império, onde só entravam filhinhos de papai e seus apadrinhados do aparelho de estado. Mas isso dançou com o advento da república, e hoje, assim como os "Pedro II", recebem qualquer um, desde que aguentem suas provas de avaliação, pois ainda são um padrão de ensino almejado pelas camadas interessadas em ascensão social e tecnica. Seus prédios são construções coloniais, com arquitetura rebuscada, estilosos; janelões de madeira nobre, ainda insensíveis ao cupim. Uma coisa fantástica em termos de concepção, pois possuem salas espaçosas, bem arejadas, lousas imensas, mesas de cedro vernisadas, cheias de gavetas; seus corredores lembram aqueles do filme Harry Potter, sinistros de arrepiar. E no caso do Liceu Nilo Peçanha, de Niterói, Rio de Janeiro, tem um sótão, que seguramente foi planejado como adega, pois tem balcãozinho cheio de compartimentos para copos, taças e talheres, à frente de um espelho na parede em moldura de mogno  e uma silhueta vitoriana; além de um velho barril de carvalho, aonde, sem dúvida, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Lima Barreto e tantas outras celebridades literárias desta terra de orfandades iniciaram-se nos caminhos da radicalidade estética.

- Conhece o sótão do Liceu? Indagou a morena, quase ao pé do meu ouvido.
- É ideal para uma brincadinha... Insinuou ela. Respondi que lá eu já namorei, me embriaguei, estudei e fiz muita reunião do grêmio.
- Então é "liceano... Vamos!" Disseram ambas, quase em uníssono. 
No rádio da cantina, exatamente às dez da manhã no meu Rolex, tocava uma canção, cujo trecho diz assim:" Deixa isso pra lá, vem pra cá, venha ver. Eu não tô fazendo nada, nem você também..." e seguia insinuando outras coisas, ditas pela voz de um dos meus tantos ídolos da mpb, Jair Rodrigues.

Bom, pra encurtar o lererê, a morena está aqui em casa há 32 anos. Já somos avós, e, nem os filhos nem os netos jamais saberão das nossas façanhas e quando lhe mostrei o rascunho deste texto, ela fitou-me com seu olhar fogueando e objetou: você não pôr aí os detalhes...
- Claro que não!! São nossas relíquias!
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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

SÁBADO CAIPIRA - Conto # Antonio Cabral Filho - RJ

PORTINARI
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O caipira estava preocupado com o sol castigando a sua plantação e foi conversar com o compadre  sobre o seu drama:
- Ô sô! Né q'esse solzão tá matano meu mio e meu feijão! Tinha de dá um pé d'água pra mode sarvá minhas prantas!
- Pois  é sô! Já vai umas boa semana sem uma chuvinha, né? Respondeu o compadre em tom de interrogação, pra esticar o fio da meada, e continuou inquirindo o seu amigo:
- Ocê sabe em que dia da semana cê prantou seu mio e seu feijão? Mas o dono  da plantação limitou-se a menear a cabeça negativamente. Então o outro prosseguiu seu interrogatório: 
- Se ocê prantou de domingo a sexta-feira e ainda mais com esse solzão, pode descansar que não vai dar nada! 
Mas  o plantador encafifou-se todo e quis saber o que o sol e o dia da semana tinham a ver com o seu milho e o seu feijão, e, olhando sério para o amigo, perguntou:
- Mas o quê qui ocê tá querendo mi dizê?!
- Ocê num sabe que existe a lua? Pois é. Explicou o compadre do caipira, que ainda não entendia patavinas do que o outro estava explicando-lhe. E continuou a querela:
- O quê qui a lua tem a ver com meu mio e meu feijão? Interrogou ele meio atordoado, ao que o outro retrucou-lhe:
- Ocê num sabe o dia qui o Sinhô descansou não?!
- Sei! Mas o quê qui isso tem a ver com lua, dia da semana, sol e prantação? Reagiu o pobre caipira, demonstrando irritação.

O seu compadre, mais astuto, foi explicando-lhe, pacientemente, e disse-lhe:
- É que no sábado o Sinhô descansa, num sabe; então no sábado a lua num gunverna, num sabe; então o sábado é o mió dia pra si prantá, num sabe; pra si cortá o cabela, num sabe; si capá poico, frango de engorda, podá arve, num sabe....

E nesse momento veio chegando um terceiro caipira, de nome Mané, a quem p caipira plantador recorreu:
- Ô Mané, em qui dia da semana ocê pranta sua roça e em que lua? O caipira Mané não se fez de rogado e foi lascando resposta:
- Eu pranto todo dia ! Na lua eu não posso prantá nada não, porque não posso ir inté lá, então eu pranto é na terra mermo! 
O compadre do plantador embargou a conversa com um meneio de cabeça, em sinal de desaprovação, e,
propôs a todos tomar mais uma branquinha pra lubrificar a palavra, e deixar esse assunto para resolverem durante a caminhada  de volta pra casa. 

Gargantas enxaguadas, pé na estrada, e lá se foram os três gesticulando encima de seus cavalos e sob a nuvem de poeira vermelha dos estradões mineiros.
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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

GUISADO DE VIRALATA - Conto * Antonio Cabral Filho - RJ

ANTONIO CABRAL FILHO
em 2011, com os livros
ANTOLOGIA POÉTICA VOL2/UFF, FANTASIAS/ALPAS21, ANTOLOGIA 13 / POSTAL CLUBE
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Seria só um domingo a mais na vida do menino católico levado à igreja pelas mãos da mãe para assistir à missa, confessar, comungar, tomar bênção ao padre, encontrar aqueles amigos " amigos só lá na igreja", primos arrastados pela orelha por desobedecer às mães; enfim, isso.                      

Mas, a única saída era ir à missa de sábado à noite e satisfazer "mamãe", se quisesse curtir uma cachoeira no domingo em companhia do broto desejado; foi o que fiz.

De manhã bem cedo, peguei meu cavalo, arreei, tomei banho, me arrumei, comi um pedaço de queijo e dei um  beijo na "véia", que assistia à missa de  Aparecida pela rádio Inconfidência e parti. Só ouvi o "Deus te guie!" de mãe em pé na varanda, enquanto esporeava o cavalo.

Desci a margem direita do Suassuí uns dez quilômetros e cheguei à fazenda do Mané Cachorro, como era conhecido o senhor Manoel Menezes dos Santos, criador de gado e cavalo de cria.

Mas o animal mais interessante que ele tinha não era das espécies eqüina nem bovina; era homo sapiens mesmo e do gênero feminino, que do alto dos seus apenas quatorze anos, já causava torcicolos nos verdadeiros garanhões  destas plagas de amores arrebatados a bala, quando ela passava chicoteando seu cavalo branco voando com a charrete.

Era loura mediana, e não tirava da cabeça uma fita vermelha em forma de bandana prendendo os cabelo à moda indígena, que lhe caía muito bem sobre aqueles olhos azulados, elevando a luz que realçava seus lábios rubros carnudos; típica italianinha.

Ao chegar, fui logo procurar a cadela Pintadinha, que eu lhe dera de presente uma semana atrás. Mas fui conduzido ao curral, onde ele tratava de uns potros com carrapato, e o meu "animal preferido" logo apareceu com uma bacia de mandioca cozida untada com manteiga, o que gerou um ataque de famélicos, levando-me a queimar a mão por avançar para uma guloseima, mas de olho na outra. Porém, até que foi bom. Fê-la se descontrair, rir um pouco às minhas custas e mostrar-me aquele brilho fogoso que só as mulheres apaixonadas têm quando se deparam com o homem desejado.

Comemos gulosamente, tomamos café, depois fomos pôr os animais na manga, até que chegou aquele momento "vago" que serviu-me de "deixa" e propus irmos todos brincar um pouco na cachoeira, onde o Suassuí quebra à direita. Tirei da cela do meu cavalo o calção de banho, que era de nylon, última moda vinda do Rio de janeiro, me troquei e todos se trocaram e fomos pegar as canoas; rumamos para o rio e formamos duplas; ela topou canoar comigo. Fiquei na dianteira, e fui desviando a canoa das pedras. Mesmo sem poder contemplá-la dado o cuidado que exigia total atenção, pudemos conversar. O trabalho dela na traseira da canoa não era nada fácil, pois devia evitar que batêssemos nas pedras e virássemos.  Chegamos logo ao grande lago e nos pusemos a nadar, trocamos um selinho mergulhando e nos afastamos para não "abusar". Depois chegaram seus dois irmãos seguidos pelos pais e curtimos com a cara deles. Sua mãe não perdeu tempo e, olhando-me de soslaio, disse entredentes: " Aí tem coisa; cêis tão nadando demais..."

Logo depois, tem uma queda d'água de uns dez metros de altura, mais ou menos, de onde gostávamos de pular para mergulhar no piscinão. Propus e dei o exemplo. Caí bem no meio do caldeirão, onde a água retorna depois da pancada no fundo, nadei rápido para a margem, pois ela já estava bem na ponta da pedreira, de onde é bem melhor o pulo. Seus pais vieram juntos, tirando a maior onda , a seguir os meninos voaram em saltos mortais de matar o Cezar Cielo de inveja. Foi a maior festa. Ficamos pilherando deitados na areia enquanto descansávamos.

 Mas o local tem o "Véu de Noiva" mais lindo que eu conheço, pois a água passa por trecho de cachoeira com forte correnteza, ficando totalmente espumosa e, ao chegar na descaída, transforma-se numa cortina de espuma. Por trás dela, tem uma gruta imensa, que eu nunca ousei explorar e que é onde os casais se escondem para namorar. Quando eu disse que ia ver a caverna, fui o último a chegar. 

Ficamos sentados em pequenas pedras conversando bobagens, até Seu Mané avistar uma sucuri do outro lado da piscina e propor levarmos aquele "animar" para comermos assado na brasa. Foi o suficiente para eu pedir-lhe a faca, pô-la nos dentes e avisar que eu ia para a cabeça, todos nos jogamos n'água e ao pegá-la, cortei uns cincoenta centímetro da cabeça para trás, enquanto todos continham-na com o peso dos corpos; fui à cauda e tirei mais de meio metro, e pronto. Era uma vez uma sucuri, uma vez sem o rabo para comandar o estrangulamento, sem a cabeça e o coração para "raciocinar", " quem vale o quê?"

Abrimos o ventre dela, limpamos todinha, subimos com ela nas costas ribanceira acima, pusemos dentro de uma canoa enquanto eu fui buscar o cavalo para puxar tudo  contra correnteza, desta feita ostentando um troféu a mais: bravura! 

Todos olhavam-me com um misto de alegria e admiração, até que o Dinho, irmão mais velho da 
Dasdô, disse " eu quero esse caboclo na família; assim eu não fico sem comer caça!" Mas o "brincadeira tem hora" do pai selou o assunto.

Dona Emília perguntou-me se eu queria um pedaço para minha família, mas recusei. Afinal, eu tinha que "somar pontos". 

Enquanto os velhos picavam o terror da Amazônia em postas, eu e os meninos tomávamos banho e contávamos vantagens, coisas do "Arco da Velha!"  Ninguém ficava para trás. Depois fui dar água a meu
cavalo e fiquei por lá um bom tempo, refletindo nos "acontecidos" até que chamaram para o almoço.

O domingo na casa do Mané Cachorro tinha tudo para ser inesquecível, pois foi a minha primeira oportunidade de ver a escultura grega daquela Vênus italiana. A canoagem, as habilidades com a navegação em correnteza violenta, o pulo do Véu de Noiva, a destreza em descepar a cobra com precisão, o cuidado em não parecer "avançadinho" com a menina, tudo somava a meu favor. Concluí lá com meu botões que eu estava no caminho certo. Mas agora vinha a pior parte, a hora do almoço. Como impressionar a princesinha fazendeira sem conhecer nada de etiquete? Apenas cheguei de mãos devidamente lavadas, observei que as cabeceiras do mesão de cedro eram destinadas aos pais da família, vi que a Dasdô ladeava o irmão Tim e do outro lado havia uma cadeira vazia ao lado do Dinho, seguramente, destinada a mim. Sem pestanejar, 
ocupei o meu lugar. 

Redundante observar que a sala era uma câmara de fragrâncias e que o estômago revirava de apetite, sobretudo, após tanto exercício durante a manhã toda.

Havia um tabuleiro cheio de carne frita, que pareceu-me ser de porco, pelo formato dos pedaços; uma travessa imensa de polenta, característica bem italiana; um panelão de ferro cheio de feijão, uma travessa imensa de arroz, um tigelão de salada de legumes, entre os quais detectei jiló e maxixe, pelos quais eu passaria "batido" etc.Fui objetivo e peguei uma concha de feijão, três colheres de arroz,duas rodelas de batata doce cozidas, um pedaço de carne e dei uma olhada para o jarro de refresco, pelo visto, de laranja, provavelmente feito por Ela. Provei, tinha pouco açúcar, aliás como eu gosto, e, ao provar, senti que "ela" olhava-me "por baixo" e notei a "deixa": Tinha sido feito por ela.

Enquanto comíamos, ninguém conversava. Só se ouvia a orquestra dos talheres.

Não sou de ficar comendo a tarde toda. Gosto de fazer minhas refeições rapidamente. Fui o terceiro a terminar, mesmo tendo sido o último a me servir. Dona Emília instigou-me com seu "come m,ais menino!", ao que respondi que "carne de porco não é meu forte" e notei uma revoada de olhares como que de surpresa. Em seguida, o Dinho foi pegar água e eu aproveitei para pedir licença e retirei-me. 

Fui lavar a boca, as mãos, lá  na bica, onde tinha o tanque de lavar roupa, louças, e onde foi feito o "preparo" da sucuri. Ao pegar o pedaço de sabão em barra para esfregar as mãos, do meu lado direito, notei quatro patas caninas jogadas no rego que levar a água de pia para o rio. Aí uma ideia subiu-me à cabeça: Eu comi a minha cachorra! Eu comi a Pintadinha!! Mas ao ver sobre um jirau o couro da minha cadela estirado para secar, o vômito veio sozinho. Foi um dilúvio; um jato após o outro, sem parar, fazendo-me crer que eu ia ter um troço. Enchi as mãos de água e bebi, metendo o dedo na garganta para limpar o estômago e urrei de dor, porque o regurgito foi muito forte, o que fez com que todos ouvissem  e viessem em meu socorro; mas expliquei que apenas estava passando mal, nada mais.  Dirigi-me para o meu cavalo pedindo desculpas, dizendo que precisava ir para casa rápido.

Durante o retorno, notei que realmente eu não estava bem. Parecia que até a estrada estava estranha, e, de repente, vi-me cavalgando pasto afora, longe da trilha beira-rio que fizera na ida.  E dei-me conta de que precisava reencontrar o caminho original e apressar o cavalo para chegar em casa  e tomar um chá verde.

Assim que cheguei, ouvi meu pai gritar " e aí, comeu a cachorra?!" , mas me mantive calado, sem entgender nada, para ouví-lo retrucar " vai me dizer que ocê num sabia que eles come cachorro, que eles queriam a sua Pretinha só porque ela estava bonitinha?" e continuei calado, deixando-o rir de mim até saciar-se, porque ele é demais e quando pega no pé, é pior.

Mamãe fez-me um chá de macaé, mas ainda continuo com nojo deles, e nunca mais vi a Dasdô.
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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

SOBRESSALTO - Conto # Antonio Cabral Filho - RJ

ANTONIO CABRAL FILHO, com o livro
POETAS EN/CENA 6 - Org Rogério Salgado/Virgilene Araujo,
BELÔ POÉTICO 2012.
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SOBRESSALTO

-conto-

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Como os últimos momentos são tão iguais, que quando surgem causam sobressaltos, aquele não foi diferente.
     Eu estava com os olhos protegidos contra a poluição contextual; por isso, tive de ativar a visão para acreditar e aguçar a memória para ver o moço, tão sobressaltado quanto eu, sentado ao meu lado no coletivo, que tirava cigarros do maço, acendia-os, fumava até à metade e jogava as cinzas e as baganas no piso do carro, entre nós dois.
     Mexia-se inquieto, cruzava e descruzava braços e pernas, nas pausas entre um cigarro e outro.
     Quando restava o último, acendeu-o, cruzou as pernas e acomodou como quis o braço desocupado sobre o joelho, enquanto chamineava cinzentas baforadas de fumaça, ansioso e exausto.
     De repente, atirou o cigarro no chão, e se levantou irritado, dirigindo-se a mim:
- Quê que há meu chapa?! Por que está me prestando atenção?! 
     Como os últimos momentos são tão iguais que quando surgem causam sobressaltos, fiquei sobressaltado e disse-lhe que finalmente arrancara uma palavra de alguém, pois uma troca de ideias hoje em dia, é coisa de paranóico mesmo. 
     Em seguida, nós dois, sobressaltados um com o outro, saltamos do ônibus e sumimos, correndo em direções contrárias.

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sábado, 3 de maio de 2014

APANHADOR DE SONHOS ANTOLOGIA # Antonio Cabral Filho - Edição Grupo Editorial Beco dos Poetas e Escritores - 2014


APA - RJ


1ª Edição São Paulo
Grupo Editorial
Beco dos Poetas & Escritores 2014
Contato: acf136@ymail.com
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Todos são unânimes quanto à fama, ao prestígio, ao sucesso e estrelato, sobretudo editorial: ninguém nasce popstar, ninguém VIRA Michel Jackson.
O livro APANHADOR DE SONHOS é uma ANTOLOGIA, com 27 autores, entre cronistas, contistas e poetas e vive este mesmo drama. São escritores dos mais díspares rincões do Brasil, entre os quais a exceção é aquele que tem apenas um ou dois livros editados, ou seja, a sua maioria já tem " um caminho andado."

Outro aspecto importante a destacar é a inserção da maioria de seus autores na prosa e no verso, contando-se nos dedos aqueles que se contentam apenas numa modalidade literária.

APANHADOR DE SONHOS ANTOLOGIA
traz ao público  autores bastante seguros na relação com o ato de escrever, o que podemos notar pela destreza dos textos, sem rodeios, sem arranjos nas entrelinhas, tanto na prosa quanto no verso.
Suas temáticas mostram isso, seja pela diversidade de assuntos, seja pela resolução apresentada pelo autor no desenrolar das tramas. Quanto à predominância da preocupação existencial,  a maturidade dos textos  mostra que o centro destes escritores é a solução dos dramas humanos. Confiram Adriano Ferris, Ana Bolena,André Anlub, Antonio Cabral Filho, Arnaldo Leodegário, Beto Acioli, Carolina Nunes, Célia de Almeida Alvarenga, Cintia Rank, Claudynha, Deolinda Nunes, Dú Karmona, Eugênio Morato Quadros, Fernanda Muniz Francisco, Harlei Cursino Vieira, Helládio da Silva Holanda, Isabem C S Vargas, James Pinheiro da Silva, Johnathan Bertsch, Leandro Yossef, Lenival de Andrade, Lin Quintino, Liz Rabello, Nino Campos, Sérgio Francisco de Oliveira, Sirlei Dangui, Zezé DSouza, 

Neste livro o leitor encontra o poeta extasiado com as realizações do amor, o cronista feliz por ter encontrado com um beija-flor a caminho do trabalho e o contista apresentando um estoque de soluções para quem sonha um futuro cheio de certezas.  

APANHADOR DE SONHOS ANTOLOGIA
pode ser adquirido com os autores, seja através de contatos diretos seja via suas páginas na internet, em sua maioria alojadas no Portal Beco dos Poetas, ou Facebook etc, e não fosse a exiguidade desta tiragem de lançamento, os distribuidores teriam um excelente produto de mercado, pois contariam com imensa rede de mídia a seu favor.
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MURMURROS - Conto # Antonio Cabral Filho - Rj

http://consistencia.org/como-fugir-da-cadeia 
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MURMURROS

Já escutava aquele barulho há dias. Era um barulho contínuo, como o som de um trovão prolongado. Colei então o ouvido à parede em busca de melhor acuidade sonora e, só pude convencer-me de que não mudava a intensidade.

Seguramente, não eram socos nem gemidos. Não era ruído de britadeira, nem de trator. Nem motor de carro parado. Nem barulho de compressor. Passaram-se dias, sem que aquele barulho parasse ou mudasse aquela intensidade monocórdica.

Inúteis minhas perguntas ao carcereiro sobre o que havia no compartimento ao lado da minha cela. A cada interrogação feita, o carcereiro de plantão reagia de forma cada vez mais assustada, a ponto de chamar  o "pisiquiatra" do presídio, que após longa sessão de análise, comigo deitado sobre o catre que eu usava como cama, saiu profundamente deprimido com a minha situação e sem condições de emitir o seu diagnóstico.

A partir daquele momento, eu tive a leve impressão de que  estava exposto à visitação pública, tal a quantidade de pessoas que vinham observar-me atrás das grades, cada uma esboçando reações as mais estapafúrdias. Algumas se punham a escrever, outras a ouvirem uns barulhinhos vindos de umas caixinhas de música encostadas ao ouvido; outras ainda se soltavam a cantar, dançar, a tal ponto que a segurança do presídio resolveu se reunir  para encontrar uma solução. 
- Resolveram acabar com a brincadeira. Foi o que consegui captar da conversa entre dois guardas, sempre prostrados a dois metros da minha cela.

A partir daí, convenci-me de ter me tornado incomunicável,ou seja, eu passara a ser um preso de alta periculosidade, sobretudo pelos olhares a mim emitidos, fosse pelos carcereiros, guardas ou até comandantes militares, que se plantavam frente ao portão, sempre escrevendo e passando comunicados pelo rádio instalado em um jipe militar, de onde não arredavam pé.

Mas houve um dia em que não apareceu ninguém. E o carcereiro chegou assoviando, o guarda de plantão leu um jornal inteiro, e, insolitamente, deixou-o cair bem perto do portão, indo embora a seguir. 

Seco por uma notícia do mundo lá fora, como eu estava, corri o risco de ganhar uma sessão de pau-de-arara ou levar um caldo, mas arrastei-o como um gato que toma o brinquedo do outro e pus-me a examinar em que direção  o guarda tinha ido. Não o vi mais. Aliás, nunca mais. Voltei-me então para o jornal. O vento soprava tranquilamente, brincando com as folhas secas do pátio, vindas não sei de onde, uma vez que ali, no campo visual à minha frente, não haviam árvores. 

Os olhos corriam o jornal avidamente, até que esbarraram num COMUNICADO do Ministério da Defesa, avisando que o PRISIONEIRO X se encontrava
 incomunicável por tempo indeterminado, e, mais abaixo, uma nota registrando o DESAPARECIMENTO de Olinto dos Santos, 31 anos, brasileiro, casado, residente à Rua Almirante Bournier, 171, centro; "Quem o vir ou tiver notícias, favor comunicar-se com Maria dos Anjos, no referido endereço. A família agradece." Joguei o jornal de lado. Afinal,  qual a graça de fatos tão idiotas? Comunicados militares, gente desaparecida, eu hein! 

O sol já se ia batendo em retirada, e a penumbra começava o seu reinado ao longo do pátio e logo ocuparia os cantos de minha cela a fazer-me companhia até ao dia seguinte. Então, só me restaria esperar a noite chegar para eu trocar ideias com ela, o vento e as sombras, ora delgadas ora desengonçadas, como um general de reserva.

Alguns dias sem guardas, sem carcereiros mal humorados, avaliei que havia mudado a minha situação. Parecia que estavam sendo "bonzinhos" comigo. Primeiro, foi o jornal, o carcereiro descontraído, depois a suspensão do guarda no portão da cela, e agora, sobremesa no almoço, no jantar, lanche às 21 horas; eu hein!...

Mas durou pouco. Nem uma semana, e chegaram três oficiais e um guarda à porta da cela, e um deles afirmou, meio sizudo e sem ninguém lhe perguntar: É esse aí! Disse apontando para mim, visivelmente nervoso. Um outro, de olhar perscrutativo, disse"Abre!", sem tirar os olhos de mim. Os oficiais entraram na cela e o guarda ficou na porta, de metralhadora em punho, descontrolado a tal ponto que até a arma tremia. Um dos oficiais perguntou-me, em tom irônico: "X, você conhece a ante-sala do inferno?" Sem entender nada, olhei-os todos, de cima a baixo, um a um, detidamente, e lembrei-me do jornal: O "desaparecido" era eu.
- Cuidado, ele é perigoso! Gritou o guarda empunhando a metralhadora, ao que todos anuiram e foram se retirando de costas, devagarzinho. Mas o mais forte deles, meio barrigudo, branco e de bigode, disse pra mim, com a voz cheia de sulismos:
- Você está nela!! E se foram. Eu continuei ali, preso. Sem entender nada. 

Mas um silêncio de pedra tomou conta de tudo, por dias a fio. Não apareceu mais guardas, nem carcereiros, nem militares nervosos, nada. Só que deixaram o portão aberto, sem cadeado e até a corrente levaram. Porém, temendo fuzilamento por "fuga simulada", fiquei mais atento ainda. Dormia o mínimo, pelo risco de não acordar. Foi assim, até aventurar-me a abrir o portão e olhar para o lado de fora e constatar, surpreso, que eu estava largado pra trás, que o quartel fora abandonado e todos se foram...
*&*

sábado, 26 de abril de 2014

JAVAÉ * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ


***

Minha história começa pelo nome: Antonio.

Por ser filho de ambiente natural, onde os nomes são transparentes e

todos sabem seus significados, a palavra Antonio me causava

estranheza, por não saber o seu significado.

Passei a infância brincando com Coaraci, Jaci, Peri, cunhatans e

curumins da minha taba, nomes tirados por meu povo da sua relação com

a natureza onde vivia.

Mas a minha gente aceitava que um estranho chegasse e se juntasse a

nós, se casasse com uma cunhan da tribo e até que chegasse ao posto de

Ubirajara. Isso levou ao surgimento de nomes como o meu, Antonio; além

de outros como Maria, Ana, Francisco, Tereza etc, todos ligados a uma

religião baseada numa cruz e num homem branco que chamam de Jesus

Cristo, e, aos domingos, íamos à igreja deles.

Meu pai era um homem branco. Ele raptara minha mãe e a levara para um

cafezal, onde eu nasci. Depois, viemos morar com a família dela na

aldeia.

Até hoje eu não sei o que nos fez viajar no meio da noite, cruzando

rios a nado, florestas e montanhas no maior silêncio que eu já vi, sem

cortar arbustos nem cipós para abrir caminho ou fazer pousada sequer à

noite. Sei somente que minha mãe seguia na frente, comigo escanchado

ora nas costelas ora nas costas e, quando ela parava com o dedo

indicador sobre os lábios, era sinal de que havia perigo. Por diversas

vezes passamos ervas no corpo, para não atrais a sanha dos animais com

o cheiro do sangue humano.

Mas com o tempo eu fui percebendo algumas curiosidades sobre a palavra

Antonio: Nome de um santo que promove o casamento, uma espécie de deus

dos casais. Descobri depois que o seu dia é treze de junho, época de

festa junina, quando se faz quadrilha com todos fantasiados de

agricultor para comemorar as colheitas. Dessa época, eu preferia as

batatas assadas na fogueira, o milho cozido, os doces, as broas etc.

Pude notar que se tratava de santo festeiro, partidário da fartura e

certa liberdade de gula.

De surpresa em surpresa, caí sobre um dicionário de nomes próprios,

onde encontrei a surpreendente explicação sobre Antonio: Aquele que

não se vende, incorruptível, puro de espírito, que protege os pobres e

as crianças.

Depois de refletir sobre tudo que levantei a respeito do meu nome,

calei-me mais ainda sobre minhas desconfianças e rejeição a esses

nomes ligados a esse tal de Jesus e jamais revelei por que sempre me

apresentei pelo apelido de Javaé.

Certa vez meu pai deu-me a tarefa de capinar o matagal ao redor da

nossa oca, casa segundo ele, e ao terminar e amontoá-lo para queimar

depois de seco, foi-me entregue uma nota de dinheiro, para eu comprar

balas no domingo, após a missa dos cristãos. Então, lembrei-me do meu

nome, Antonio, incorruptível, que não se vende, lá do dicionário, e

perguntei ao meu pai se ele estava me comprando, me corrompendo, por

eu ter realizado uma coisa boa para todos nós, , como a segurança de

não haver nenhuma boiúna tocaiando nossos pintinhos, minha mãe deixou

claro que não gostou por ter lhe tirado o único local aonde pôr a

roupa para quarar e minhas amigas de brincadeiras chiaram por ficarmos

sem a relva onde estender as esteiras para tomarmos sol deitados.

Vendo meu embaraço, ante as três insatisfeitas, meu pai chamou-me e

disse ao pé do ouvido:

- Compra tudo de bala e dá duas para cada uma que elas esquecem logo-logo!

- Como o senhor é corrupto! Exclamei, mas não tive outra saída.

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